Ontem o Flamengo e o Santos deram um show a parte no Brasileirão com um lindo jogo, que rendeu 9 gols, coisa rara no futebol mais contemporâneo. No entanto, vergonhosa foi a atitude de alguns torcedores do Santos no camarote: gritar insultos racistas a jogadores do Flamengo que estavam se aquecendo em frente aos seus lugares. Aliás, mais vergonhoso do que isso é que até agora eu não vi nenhuma repercussão na mídia sobre o assunto, ninguém falou nada, ninguém se manifestou... enfim, como sempre, o silêncio impera onde a revolta deveria gritar.
Bom, embora não tenha revoltado a mídia, a mim incomodou bastante essa atitude. Reclamei em um site de relacionamentos e infelizmente, me decepcionei mais com a repercussão do que com a situação propriamente dita. Em algum momento, uma amiga muito consciente, reclamou que pior que o racismo, é a banalização do racismo, com as seguintes palavras:
"Foi muito feio mesmo, Inha. O pior é ver o quanto o assunto é banalizado e até usado como piada. Ser preto num país de preto é foda."
Eu achei que fosse ser uma bela chave para fechar um assunto com chave de ouro. Afinal, a destreza dessa minha querida irmã com as palavras é bem digna de uma chave de ouro para um assunto tão triste e polêmico. No entanto, eu me enganei, e fui surpreendida por um comentário triste, decepcionante, doído...
"Que e' isso...o Brasil nao e' spo de preto e muitos sao civilizados. No Rio e' que se encontra mais escuridao, mas mesmo assim....somos todos irmaos.....e nao podemos julgar o proximo...Papai do C'eu nao gosta :0) rsrrrsrsrsrsrsss"
Como assim "muitos são civilizados"? Quer dizer que, parafraseando uma grande amiga, há negros que ainda são rudimentares, primitivos e que não se adequam à uma civilização que se diz, de forma hipócrita, civilizada? "Não podemos julgar o próximo"? Por quê julgaríamos? Por serem negros?
E, para dissertar sobre a pior parte do comentário, vou novamente usar as palavras dessa minha grande amiga:
"E essa "escuridão" aí, irmã? A "luz" deve ter ficado lá pela Europa, pois a raiz do Brasil pode ser de qualquer cor, menos branca. Branca é a cor dos exploradores que chegaram aqui; branca é a cor dos que arrancaram o negros de sua terra, escravizaram, açoitaram, aleijaram e mataram negros por aqui; branca é a dos que quiseram escravizar os próprios donos da terra e hoje é a cor da corrupção política que assola neste país."
Enfim, é muito triste ver que as piores demonstrações de racismo não são as explícitas como os ataques dos grupos Skinhead, ou os comentários do palhaço do Bolsonaro. O mais triste é ver o quanto o racismo é tão construído na nossa sociedade que mesmo sem perceber, algumas pessoas são tão racistas como esses que acabei de citar, e ainda assim, se acham no direito de dizerem que amam a humanidade como um todo.
Mas talvez seja verdade. Afinal, é muito fácil amar a humanidade. Difícil é amar o jogador negro do Flamengo que estava se aquecendo em frente ao camarote da torcida do Santos. Difícil é amar a vizinha negra que canta suas melodias de louvor a Orixá. Difícil é entender que os negros são mais civilizados que o palhaço que faz um tipo de comentário desses.
Amar a humanidade é fácil. Difícil é amar o próximo!
Ainda falando sobre preconceito, hoje vi uma matéria sobre a aceitação da lei que assegura aos casais homossexuais o direito de constituirem união estável civil. Mais da metade da população é contra a união estável entre casais gays e a mesma proporção se mantém quando se trata da adoção de crianças por lares homoafetivos.
O estudo, realizado entre os dias 14 e 18 de julho, identifica que as pessoas menos incomodadas com o tema são as mulheres, os mais jovens, os mais escolarizados e as classes mais altas. Pois é... homens cada vez mais machistas, velhos cada vez mais agarrados a antigos preconceitos e os pobres, mas não de dinheiro, os pobres de espírito, cada vez mais medíocres. Essa é a tendência real no nosso país.
O pior é que a grande maioria que é contra o reconhecimento dos direitos civis dos gays não se diz contra o convívio com homossexuais. Isso é o mais mesquinho! Toleram por perto desde que, legalmente, continuem tendo a certeza de que são inferiores, menos favorecidos, uma minoria oprimida. Aliás, é fato que no Brasil há cada vez mais grupos de minorias oprimidas. E não necessariamente minorias quantitativas, mas no geral minorias em voz e voto. Menos negros com voz ativa, menos gays, menos candomblecistas, menos umbandistas, menos deficientes, menos menores abandonados...
Enfim, hoje eu me decidi a pelo menos hoje expressar a minha fúria e a minha revolta com esse mundinho pequeno e medíocre no qual temos vivido. Espero ter acendido uma luzinha na mente dos poucos que vão ler esse texto.
(Aline Queirolo)

















