Querido Tempo,
Espero que esta te encontre em perfeita saúde e total desenvolvimento do seu trabalho. Trabalho aliás, cruel e feroz, mas que nos traz uma eterna sensação de segurança.
Hoje, caro algoz, venho por meio desta te falar de mim mesma. Venho lhe fazer alguns pedidos. Espero que dentro de suas possibilidades, possas me atender.
Venho, lhe pedir, grande e inexorável Tempo, que as tuas marcas em meu corpo, que as rugas que plantares em meu rosto, assim como as cãs que fizeres surgir em meus cabelos, sejam não apenas marcas de degeneração dos órgãos que formam meu corpo, mas provas de que tua ação me tornou mais sábia e segura de mim. Que quando as atividades diárias corriqueiras se tornarem cada vez mais pesarosas, que não seja apenas porque minha resistência está cada vez mais baixa, mas porque as pratiquei o suficiente para ensiná-las aos que vierem depois de mim. Que quando o meu ventre secar não seja apenas por ter perdido minha utilidade biológica enquanto mulher, mas porque já fui fértil o suficiente de dar ao mundo descendentes fortes e úteis. Que sejas gentil em sua passagem tão constante, me tornando mais moderada, plena e serena, mas que sejas também constante como sempre és, tratando minhas feridas, porém sem nunca apagares as cicatrizes.
Enfim, sábio e eterno Tempo, que a tudo vê, a tudo suporta e a tudo sobrevive e que, em hipótese alguma cessa seu árduo e cruel trabalho, imploro e suplico-te por fim, que quando todas as minhas engrenagens pararem e meu corpo não mais for funcional o bastante para manter a vida correndo em minhas veias, que eu tenha aprendido tuas lições, que tenha me tornado um ser humano melhor, que eu tenha dado bons frutos e que assim, ao se despedirem de mim em meu último leito, não se lembrem todos de mim, ou cantem glórias ao meu nome, mas sim que pelo menos uma das pessoas presentes em minha despedida pense, com certo carinho e respeito: "Eu aprendi algo importante com essa mulher."
(Aline Queirolo)

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